quarta-feira, março 16, 2011

Rabugices sobre uma propaganda.

Eu gostei da nova campanha de propaganda da Net para TV: "No dia em que eu virei um Net".
Nunca gostei das campanhas anteriores dessa empresa em nenhuma de suas edições e sempre que aparecia uma nova eu balançava a cabeça e ponderava se a campanha que era péssima mesmo ou era eu que estava ficando cada vez mais rabugenta.
Por isso, ver o Hudson Senna entrar com um violãozinho maroto foi uma bênção. Fui gostando de todas as edições, até a do sapatinho de pano pra não riscar o chão rarara, mas gelei quando vi uma das últimas a serem veiculadas. A da filha, Suzana.
O ator/cantor entra em cena com o violão e a filha está numa mesa de estudos entediada. O texto diz que a filha Suzana quer adquirir cultura "mas não tem a menor paciência". Então a solução é assinar a Net.
Bateu no ponto.
Claro que arte de maneira geral, cinema e teatro em particular são fundamentais. E a TV a cabo está trazendo muita coisa de boa qualidade. Mas nada disso será absorvido de maneira plena ou minimamente compreensível sem estudo prévio. Uma coisa não substitui a outra. Recentemente assisti de cabo a rabo toda a série Roma produzida pela HBO e adorei. Compreendi conceitos, alinhavei períodos e me deliciei com uma produção primorosa. Mas certamente não teria aproveitado nem 10% da coisa se não houvesse primeiro passado pelos livros de história.
Eu gosto muito de televisão, adoro internet e não sou contra nenhum dos avanços tecnológicos. Mas nenhum deles jamais substituirá horas diárias de estudo sério. E esse caminho passa, necessariamente, pela leitura. 
E o que me irrita profundamente  é essa condescendência com a chamada "geração Y". Até o nome dado eu acho ridículo. Melhor, o fato de terem dado nome a isso é ridículo.
Acho lamentável nomearem como fenômeno sociológico o produto de décadas de negligência paterna e alienação cultural. Ou melhor, nomear, tudo bem. É papel da sociologia entender e classificar comportamentos. O que me deprime é o fato de universidades reunirem seu corpo docente uma semana antes do início do ano letivo pra palestras que tem o intuito único de mostrar como funciona a cabeça da  "geração Y" para imediatamente se adequar a ela. Os alunos não lêem livros? Damos resumos. Não fazem pesquisa? Confeccionamos apostilas. Não lidam com papel? Fornecemos matéria condensada em lindos e caríssimos netbooks. E, como sugere a propaganda mencionada, tem preguiça de estudar? Assinamos a Net e está tudo resolvido.
Não existe forma fácil de adquirir conhecimento. Não existe fórmula mágica de aprender sem esforço. E é nosso papel de pais e educadores propiciar condições para o exercício do aprendizados de nossos filhos. E determinados conceitos não mudarão jamais. Estudar é difícil, é cansativo e não será divertido o tempo todo. Exige concentração, esforço, responsabilidade e disciplina.
Todo o avanço tecnológico conquistado servirá sempre de base de apoio, ferramentas de pesquisa e complementação de formação cultural.
E esse conceito do caminho fácil tão naturalmente defendido me ofende. E estar numa propaganda de TV a cabo me revolta.
Eu só torço pra todas as Suzanas estarem juntas e inscritas na mesma prova de mestrado que eu.
Aí sim. Seria divertido.

7 comentários:

Anônimo disse...

InFelizmente a ideia de que a informacao esta se processando muito rapidamente é que faz os adolecentes acharem que td é muito facil e rapido ,sem a necessidade de estudar ou aprender de fato , pior pra sociedade , bom pros nossos filhos que foram educados a moda "antiga", em terra de cego quem tem um olho é rei.

Ana Paula Medeiros disse...

Nega, como sempre, tua rabugice é a minha rabugice. E o meu regozijo!
Pode ter certeza que muitos dos candidatos ao mestrado que concorrerão contigo estão exatamente nesta categoria. Vc vai deitar e rolar.
Amei todas as letras.

valeriaterena disse...

Concordo com quase tudo.

Realmente reforçar a idéia de que basta clicar pra obter conhecimento, é um belo desserviço. A leitura, o estudo, são necessários e imprescindíveis.

Mas, não aguento mais o tal cantor e seu violão - tenho mudado de canal assim que ele aparece. Saudade do Coronel marrento e seu iskavusrka.

Bjks

José Henrique Fernandes disse...

Ahh o livro, uma ideia encapsulada, encorpada. Normalmente primeira fonte veridica de um pensamento/ideia.
Objeto que permite alta concentração e uma usabilidade que ja dura desde o codex da roma antiga!

Realmente são otimas qualidades para o aprendizado.

Mas todos sabemos que a soma de imagens, textos , videos e interações permitem um aprendizado melhor.
A tecnologia está aqui para nos ajudar, o livro merece respeito mas está cada vez mais ultrapassado. Estamos abertos ao kindle, ao ipad, a realidade aumentada. Aos filmes, documentários, videos, wikipedia, power points para apreender e estudar.

Mas de nada adianta as tecnologia se o verdadeiro problema não for resolvido:

A falta de discernimento, observação e pensamento crítico desta, ou da minha, geração Y. Schopenhauer já comentava em sua epoca: ler kant, focoult, barthes não irá fazer diferença se você se tornar um reprodutor de ideias.
Já tive professores na universidade que eram apenas estes reprodutores.

Não refletir e entender a raiz do pensamento, transforma este estudo em nada. A comodidade da vida transformou a geração Y em uma geração sem ideais.

Cláudio Luiz disse...

clap! clap! clap!

Silvana Ferrari disse...

É por essas e outras que eu não consigo mais ver tv, Suzi. É muito triste ver isso acontecendo, muito mesmo, embora eu veja todo dia ao vivo, ver isso veiculado como vantagem é repugnante, revoltante e sei lá mais o quê.
Um colega outro dia mesmo me disse que não gostava de ler, que pra dar aula pegava resumos no google.
A Regina Duarte tinha medo, eu tenho pavor do que está por vir.

Odessa Valadares disse...

Estou mesmo na contramão da evolução. Ligo a TV quando dá saudade do William (Bonner) e pra ver algum filme no vídeo-cassete(o daqui funciona bastante) ou algum DVD. Não tenho TV a cabo, não sinto falta. E só mudo de endereço se houver espaço e ventilação pros meus livros. Penso seriamente em comprar alguma enciclopédia, porque a Wikipédia não me convence, mas nem sei se ainda se publicam enciclopédias.

Uso, sim, a internet, até demais, mas insisto que a geração atual não sabe fazer pesquisa de verdade, só 'copiar/colar'. Não escrevem, digitam. Abreviam tudo, desconhecem as antigas e novas regras de ortografia. Virei um dinossauro que não se encaixa na própria comunidade, como o 'Horácio', do Maurício de Souza: um T. Rex vegetariano. Será que as crianças de hoje ainda leem 'A turma da Mônica'?