segunda-feira, maio 17, 2010

Post longo. Tá avisado.

A @bolsinhaprada levantou essa lebre no twitter e isso me icomodou muito.
Ainda não sei se movida por preconceito ou medo que a mudança sempre acarreta, mas, o fato é que fiquei muito incomodada com  a coisa e resolvi rascunhar um texto na tentativa de clarear as idéias e verificar se meu incômodo tem fundamento.

Saiu uma matéria na Folha de São Paulo com educadores defendendo que a letra cursiva deveria deixar de ser obrigatória nas escolas.
A matéria está aqui http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u736314.shtml e eu vou tentar entender o que me incomoda tanto nisso tudo.

A matéria cita, em primeiro lugar, Piaget e o seu método Construtivista como fundamentação. Eu fiz magistério (veeelhhhaaaa), estudei Piaget e dei aulas em escola que trabalhava com o método Construtivista para o ensino fundamental e não consigo entender a relação. Para Piaget, a abordagem construtivista ajuda o educador a pensar o conhecimento científico a partir da perspectiva de quem aprende. E nesse caminho, toda a forma de expressão tem valor. Se o aluno se expressar na escrita de forma cursiva ou de bastão, isso tem muito pouca e até nenhuma valorização na avaliação dessa expressão, pois, para Piaget, o educador deverá valorizar e estimular no aluno, acima de tudo, a construção do seu pensamento. Mas isso não exclui, de forma alguma, nenhuma etapa do caminho do aprendizado nem limita e despreza qualquer forma de expressão.
O saber científico existe, assim como suas formas de expressão. E  Piaget não nega nenhuma delas. E a forma escrita, de maneira cursiva, é uma forma de expressão do conhecimento e portanto o construtivismo abraça essa expressão e não a trata como desnecessária ou obsoleta.

Entendo perfeitamente a professora da UFMG que defende no artigo que "No momento em que a criança está descobrindo as letras e suas correspondências com fonemas, é importante que cada letra mantenha sua individualidade, o que não acontece com a escrita "emendada' que é a cursiva; daí o uso exclusivo da letra de imprensa, cujos traços são mais fáceis para a criança grafar, na fase em que ainda está desenvolvendo suas habilidades motoras".
Por esse motivo é esse o método aplicado por  todos os educadores de ensino fundamental. A criança é alfabetizada em letra bastão (de forma) e passa a aprender a caligrafia cursiva durante o processo.

O artigo ainda passa pelo argumento da tecnologia dizendo que a letra de imprensa já avançou sobre a cursiva e outra pedagoga tem a coragem de dizer que a letra cursiva é responsável pelo alto nível de analfabetos no país:  "Acho que ela [a cursiva] é uma das responsáveis pelo analfabetismo em nosso país. As crianças além de decodificar o código da língua escrita (relação fonema/ grafema) têm também de desenvolver habilidades motoras específicas para "bordar' as letras. O tempo perdido tanto pelo aluno, como pelo professor com essa prática, aliada ao cansaço muscular, desmotivam o aluno a aprender a ler e muitas vezes emperram o processo".

Não vou fazer nenhum comentário sobre o baixo índice de acesso a computadores na idade de alfabetização num país de 180 milhões de habitantes pois acabo de descobrir, com esse último argumento, o que realmente me incomoda.
É o nivelamento por baixo.
Diante da incapacidade do indivíduo de lidar com suas próprias deficiências, tendemos a nivelar por baixo. A fazer concessões. Buscar a excelência não é difícil. Mas é muito trabalhoso. E, principalmente, demanda tempo. E tempo mais trabalho duro são coisas que muito poucos educadores se dispõem a oferecer.
Se ninguém mais passa no vestibular por conta da redação, eliminemos a redação.
Se o indivíduo chega ao final de uma faculdade de Direito sem saber construir um texto, ele faz um cursinho caro que resolve tudo.
Se a criança está com dificuldade de assimilar os significados e construir seu pensamento crítico, eliminemos a expressão escrita na sua forma cursiva. Isso deve resolver tudo. 
A dificuldade de aprendizagem das crianças em fase de alfabetização passa bem longe da necessidade de eliminação da caligrafia cursiva.
Isso é apenas um efeito make up num problema arraigado na base da nossa própria deseducação.
Mas atacar o problema, de fato, é outro assunto, para outros textos de outras personas de letras e saberes que não domino.
Aos educadores que têm como função pensar o país do ponto de vista de seus educados, não façamos concessões absurdas em nome de uma adequação imediata a tantas crianças que merecem um segundo olhar, bem mais atento, sobre suas dificuldades.
E àqueles miserável que, movidos por tantas concessões, nunca leram um livro na vida que não fossem aqueles exigidos na escola, meus pêsames. Você perdeu o bonde e ele não volta a passar na sua rua. Nunca mais.
E, principalmente, fique bem longe de mim.

4 comentários:

Ana Paula disse...

Nossa, adorei suas reflexões. Concordo inclusive. Engraçado, eu, que também sou veeeeelhaaaa, fui alfabetizada dirto em letra cursiva, não passei por essa fase da letra de forma. A cartilha já vinha com as letrinhas "de mãozinha dada". Era um método que se chamava "metodo da abelhinha", nem sei se você ou alguém mais já ouviu falar disso. Mas cada letra era apresentada dentro de uma historinha, era um personagem a mais dentro da historinha, e cada letra representava também, graficamente, esse personagem. Assim, o A era a abelhinha (e a gente via uma abelhinha desenhada estilizada no formato de uma letra a cursiva minúscula), o b era o bule, o c era o caracol, e assim por diante. Eu lembro de quase todas as letras até hoje.
Posso estar dizendo bobagem, não fiz magistério, nem licenciatura, nem pedgogia, mas acho que pra quem tá aprendendo a "desenhar" as letras (estou falando de crianças, em termos de desenvolvimento da coordenação motora), não sei se faz muita diferença aprender cursiva ou bastão. Mas eu acho que empobrece muito as possibilidades de aprendizado quando a gente começa a eliminar as coisas assim, com base nesses argumentos reducionistas. Mesma coisa com a linguagem, o vocabulário vai sendo reduzido a meia dúzia de termos que servem pra designar qualquer objeto ou situação e tudo vira "coisa", "troço", "negócio", "valeu", "falou".
É complicado, dona Suzi, o buraco é láááá embaixo.

Dalva Maria Ferreira disse...

Então... eu sou do tempo da Caminho Suave, tenho 58 anos. Fiz Letras, amo a leitura desde sempre. Não sei o que foi que houve com a nossa cultura, só sei que foi feio. Nivelar por baixo é triste.

Aline Veingartner disse...

Acho que o aviso de post longo só despertou minha curiosidade, hehe

Não tinha visto essa notícia ainda e achei muito interessantes suas colocações acerca do assunto. Não faz o menor sentido associar letra cursiva com analfabetismo. É um absurdo, dos grandes; descaso com a educação, para variar.

Odessa Valadares disse...

Suzi, sou do tempo da Ana Paula, com direito a abelhinha, bule e tudo o mais. Se você se acha velha, saiba que o velho magistério ainda existe, e eu estou aqui, boba, com essa história.

Eu, médica, faço caligrafia pra manter a letra legível, embora ela seja mais bonita no caderno que na receita do paciente. Agora vem esse povo dizer que meu esforço pela individualidade (pra mim, letra cursiva é o que hpa de individual num texto) foi em vão?

Esse mundo tá perdido.