segunda-feira, abril 27, 2009

Informação Líquida *

Bibliotecas e livrarias me provocam uma sensação conflitante. Amo tudo: as cores, os cheiros, as formas, mexo no que posso, folheio, aliso e levo o que me é possível sempre que possível.
Mas sempre me angustio em saber que jamais lerei tudo. Por outro lado me agrada e conforta o fato do "tudo" estar por ali. Ao alcance das mãos e às vezes do bolso.

Leio agora que o New York Times está num impasse: ou fecha ou vende. Que não tem mais como gastar milhões de dólares por ano para enviar seus repórteres ao redor do mundo, manter uma estrutura profissional capaz de arcar com os custos de produção de uma boa informação. Culpados à vista: a crise econômica mundial que afasta o assinante/anunciante e os novos hábitos de internet.

Buscamos cada vez mais a informação de consulta: rápida, meramente ilustrativa e, na maioria das vezes, através de um site na internet. A produção amadora da informação é fantástica, a rede de blogs está aí pra demonstrar isso, e pode ser feita - e em grande parte é - com fundamento, responsabilidade e competência. Mas o plano inicial, acredito, não era a substituição dos canais formais de informação. Especialmente canais como o New York Times de qualidade irretocável.

Temos cada vez menor critério e maior urgência. A internet nos abriu portas e janelas para o mundo e não temos paciência de pesquisar e conhecer esse mundo que passa. Queremos tudo e agora.

O acesso a sites de busca é nosso primeiro mecanismo de informação. Mas para que a busca seja satisfatória é necessário que continue a existir a produção da informação por um jornalismo profissional de busca, seleção e difusão competente. Exatamente aquilo que não é possível mais.

Estamos caminhando a passos largos em direção à superficialidade. Nos relacionamentos, no comportamento social, no entretenimento e na informação. Minha angústia perante os muitos livros que jamais serei capaz de ler se soma agora a uma angústia pior. Cada vez que clico numa busca rápida, seleciono o canal da informação que mais confio. E este canal geralmente é produzido de maneira formal, como o New York Times. Me angustia agora saber que este meu clic não é inocente e, pior, está matando a fonte do qual se alimenta.

* Parodiando Zigmunt Bauman

Um comentário:

Odessa Valadares disse...

É uma notícia triste e revela algo importante: em qualquer área é preciso se reciclar. O NY Times demorou a perceber a mudança do público. A maioria dos grandes jornais hoje funciona como agência de notícias também, outra fonte de renda para a empresa. Espero que alguém com visão compre o jornal (fechar seria um crime)e mantenha a qualidade que fez desse jornal um dos melhores do mundo.