sábado, outubro 20, 2007

O que me acode

Os cemitérios da minha terra não dão vontade. Eu quero é o seio de Deus, quero encontrar Abraão e me insinuar junto dele, até ele perder o juízo e me fazer um filho que terá muitas terras e ovelhas. Emancipada eu não quero ser, quero ser é amada, feminina, de lindas mãos e boca de fruta, quero um vestido longo, um vestido branco de rendas e um cabelo macio, quero um colchão de penas, duas escravas negras muito limpas e quatro amantes: um músico, um padre, um lavrador e um marido. Quero comer o mundo e ficar grávida, virar giganta com o nome de Frederica, pra se cutucar na minha barriga e eu fredericar coisas e filhos cor amarela e roxa, fredericar frutas, água fresca, as pernas abertas, parindo. Quem dá o grito primal paga caro o analista, quem dá o grito vai preso, quem escreve feito eu esgota o zumbido do seu ouvido, mata um a um os marimbondos, com agulha fina nos olhos. Não posso ver trouxa frouxa, amarro até ficar dura.

Adélia Prado, pois tem dia que, ai, ai.... preciso dela.

8 comentários:

Mauro Chazanas disse...

Suzi, a Professora Marilena Chauí, na página da internet da Livraria Cultura, coloca "Poesia Reunida" da Adélia Prado como leitura obrigatória. Não conhecia nada da poeta, e deu o maior trabalho de achar o livro, consegui pela internet e em sebo. Tá na minha lista, logo depois de Mário Quintana, poeta de minha maninha, poeta a quem eu não dava o devido valor até ouvi-la.

Anônimo disse...

Pois é Mauro, e este trecho é exatamente desse livro. Poesia Reunida é um daqueles de eterna cabeceira que de vez em qdo eu releio.
beijos
Suzi

eu disse...

Pois é Suzi querida do meu coracao , falando em dias, minha maior alegria e te ver todos os dias , mas quando por um motivo ou outro isso nao é possivel, a saudade me doi como remedio ruim , mas eu sei que isso passa ...espero que passe!bj minha flor

Ana Paula disse...

Eu amo Adélia Prado e, vergonhosamente, não tenho nenhum livro dela. Tenho que remediar essa situação, urgentemente.

Mani disse...

Suzi, adoro Adelia Prado. Adoro voce!!!

Ana Paula disse...

Pronto, você conseguiu. Saí e comprei um livro da Adélia. Não encontreo o Poesia reunida (tava esgotado até via internet) e fui de Um coração disparado, mesmo. **suspiros**

E o coitado do Mauro que veio pro rio passear e deve estar ilhado por causa da chuva? Ô Maurinho, eu não consegui ir ao almoço aquele dia. E o pior é que nem foi só por trabalho, foi por responsabilidades domésticas e maternais mesmo.

Tomara que páre de chover, pra gente poder se encontrar!

Dalva M. Ferreira disse...

Mineira... não? Eu também parece que nunca tinha ouvido nem lido. Aliás, a minha cultura é cheia de vazios, de furos. É uma colcha de retalhos, mas muito da malfeitinha.

Gio disse...

Amo, amo, amo Adélia. Fiz um curso com o João Silvério Trevisan, já faz tempo, e tínhamos que falar do nosso autor predileto. Eu disse que era Adélia e todo mundo olhou espantado, pq eu tenha essa mania de escrever sobre dores e desgraças, né? E Adélia é leve, Adélia flui. Mas ela é a minha redentora. Nossa. Amo mesmo.

Beijos.