segunda-feira, julho 02, 2007

Artigo Criminoso

Em 12 de junho, o Ministério da Fazenda divulgou medidas de fortalecimento industrial dos setores intensivos de mão-de-obra prejudicados pela "sobrevalorização cambial", conforme consta do texto divulgado para a imprensa.

A primeira medida anunciada foi na área de crédito, com o Programa Revitaliza. Ele consiste na criação de três linhas especiais de financiamento com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e equalização de taxas de juros pelo Tesouro Nacional.

As linhas contemplam capital de giro, investimento e exportação (pré-embarque). O valor total das linhas é de R$ 3 bilhões, sendo R$ 1 bilhão do FAT-Giro Setorial, a ser contratado até dezembro deste ano. Foram beneficiadas pela medida as empresas dos setores de calçados, artefatos de couro, têxtil, confecções e móveis, com faturamento anual de até R$ 300 milhões.

Lembram disso? Pois é.

Um jornalista, Giuliano Guandalini, na Veja de 20 de junho de 2007 (ainda tem quem lê, trombei com o artigo pois vieram me mostrar), escreve sobre o assunto sob o seguinte título: “Dinheiro no Lixo” e com a seguinte chamada “Pacote para socorrer supostas vítimas do dólar barato é inútil e caro.”

Não posso responder pelas indústrias têxteis, confecções e calçados, mas na qualidade de trabalhadora na indústria moveleira brasileira desde 1998, eu respondo.

Vejamos.

O primeiro enfoque do artigo afirma que é natural que as empresas antiquadas morram com o real valorizado. Acredito que um número mínimo de empresas, as mais velhas, as mais obsoletas, as que não investiram, as que têm problemas com velhos equipamentos, pode morrer nesse processo.

Fica aqui o convite ao jornalista que visite as principais feiras de Móveis do País, (e para que ele não tenha muita dificuldade em identificá-las eu listo as principais: Movelsul em Bento Gonçalves – RS, Movelpar em Arapongas – Pr e Fenaven em São Paulo. É só botar no Google que o nobre jornalista saberá as datas dos eventos) identifique os fabricantes de móveis de porte médio e vá visitar suas fábricas.

Nessas fábricas, mesmo as de porte médio, ele encontrará equipamentos dotados de tecnologia de ponta, automatizados, a maioria italianos, sistema de embalagem, estoque e armazenagem controlados por código de barras, layout de produção planejado, PPCP (vai no Google...) funcionando diariamente, pós venda e assistência técnica atuante e eficiente e um departamento comercial totalmente adepto à pesquisa de mercado e à prestação de serviços como mecanismos essenciais da venda. Isso pra dizer o mínimo.

Verá que a maioria delas atua no mercado de exportação, a despeito de todas as dificuldades, desde a década de 90.

O nobre jornalista também usa como argumento o saldo na balança comercial. Diz que estas empresas não fazem jus ao benefício pois exportam mais que importam.

Primeiramente, se este é o argumento base do seu imbróglio, aliás, do seu artigo, ele já excluiu as pequenas empresas, pois no ramo moveleiro só estão cadastradas no RADAR e fazem exportações as empresas de médio e grande porte. E aí a descrição acima se aplica a todas em termos de modernização e tecnologia.

Em segundo lugar, a importação para estas empresas só acontece nos maquinários. Com certeza os 136 milhões de importação em 2006, anunciado no artigo, efetuado pelas empresas moveleiras, representam maquinário e alguma matéria prima. E vou dizer porque.

Matéria prima para o ramo moveleiro é uma questão delicada. A matéria prima básica (chapas de MDF e PB) é monopólio de menos de meia dúzia de fornecedores, a maioria multinacionais, que ditam preço e determinam cotas a todos os fabricantes brasileiros.

A importação dessa matéria prima, que seria uma saída, esbarra na barreira absurda de impostos, onde acreditamos que a medida do governo trará algum benefício.

Portanto, nobre jornalista, quando o governo disse que estes setores poderão com estas medidas retomar a competitividade e defender-se da concorrência predatória dos importados, duvido que ele tivesse toda a visão da coisa, mas neste ponto ele acertou.

A facilidade de crédito e a redução de impostos não será um apoio a perdedores como o nobre jornalista coloca citando o diretor da escola de negócios Ibmec São Paulo, Claudio Haddad, mas apenas um fôlego ao fabricante brasileiro que paga os maiores impostos do mundo, que depende de uma rede portuária desprovida de infraestrutura, onde faltam navios e containers, onde os funcionários de despacho nos portos entram em greve ano sim ano também, que trafega com seus produtos em estradas intransitáveis, que vê seu produto por dias em filas de carretas aguardando sua vez de entrar nos pátios dos portos, que está na mão de um monopólio de fornecedores, mas mesmo assim investe em tecnologia e modernização para poder competir com o mundo.

Pois o mundo, senhores, não está lá fora nem lá longe. A concorrência predatória dos importados atinge a todos, de pequenos a grandes fabricantes, pois o mercado asiático não atinge somente as exportações, ele já está aqui dentro, no mercado nacional, em qualquer grande cadeia de lojas. Qualquer pesquisa de cinco minutos em qualquer site de busca ilustra isso.

Portanto nobre jornalista, eu não esperava defender uma medida do governo nesta década, mas diante do total despreparo com que atuou, fundando seus “achômetros” em dados esparsos, prestando um serviço de total desinformação e, pior!, de indução à opinião publica, eu tive que me manifestar.

Não possuo a verve de um profissional da notícia, nem ocupo cargo de formador de opinião. Opinião, apenas tenho a minha, fundada em vivência, trabalho e fatos. Opinião que, neste caso, não pude deixar de emitir. Seu artigo é um crime de vandalismo contra o trabalho sério de muitos.

Já é difícil entender atitudes de vandalismo em jovens universitários carentes de informação, de formação e de noção de espaço e respeito. Detectá-lo em um profissional adulto, com capacidade de veiculá-la é uma lástima.

5 comentários:

Ana Paula disse...

Dá-lhe, suzi! adoro quando vc incorpora a executiva e desce o verbo desse jeito. Eu não estou no ramo, não entendo do assunto, nem conhecia os detalhes da medida governamental, mas você foi clara e convincente. E da Veja, eu não esperava outra coisa, ô revistinha ruim!

Anônimo disse...

Aninha meu amor. Tem hora que não dá. É foda!
beijos
Suzi

Cláudio Luiz disse...

Suzi, a Ana Paula comentou e eu vimler o texto. Sei...eu sei...não precisava a Ana mandar pra eu vir...eheheheh
Consordo com ela, matou a pau (com o sem trocadilho).
Vc ainda tem o meu e-mail? Escreva-me, preciso saber detalhes do seu trabalho. Depois explico.

Anônimo disse...

Cara Suzi,

Infelizmente você comete o mesmo erro quando fala dos fornecedores da indústria moveleira. É só pegar os balanços e você verá que seu comentário está longe de ser pertinente.

Esses produtores de painéis são sim uns heróis, pois plantam uma árvore no Brasil para colher depois de 12 anos e vender o painel de MDP a R$ 7,00/m². Não vamos nem falar no MST e nos riscos inerentes a ser uma empresa séria no Brasil. Mais um detalhe: são empresas majoritariamente nacionais e não multinacionais. Algumas são no máximo "transnacionais" como as Chilenas e Argentinas. Sobre as outras observações do artigo, acho válidas.

Anônimo disse...

Saia do anonimato. Opiniões devem ser assinadas. Aí eu respondo.
Suzi