sábado, outubro 07, 2006

Lembranças num boteco da UEM

Numa conversa de boteco, com a turma do teatro da UEM, descobrimos que um pesquisador daquela universidade havia desenvolvido um anticoncepcional pra cupins, como forma de controle do inseto.
Boteco já viu como é que é né? Acabei escrevendo a historinha abaixo, cheia de referências a pessoas queridas, cheia de códigos da turma e hoje, lendo tamanha bobagem, achei que valia a pena postar. Não pela história, mas pela lembrança que cada linha dela me traz.
Um beijo a todos que participaram dela. E um brinde a cada um que faz parte da minha vida.

Cupim na cama

O cupim é um bichinho que gosta de comer madeira e papel.
Gosta muito de madeira e papel.
Se você fosse um cupim e gostasse muito de madeira e papel, que local escolheria para morar? A-CER-TOU! Uma biblioteca, lógico!
Pois foi a biblioteca de uma universidade que a cupim-rainha de um reino azul – azul sim, pois existem cupins de várias cores, sabia não? – escolheu como novo endereço para formar ali o seu reino.
Seu nome era Cupincha e junto com seu rei, o Cupinchão I, O Dotoso, formaram o seu ninho de amor na fresta de uma parede da biblioteca.
O tempo foi passando e o cupinzeiro aumentando.
A Cupincha, pondo milhares de ovos por dia, em uma semana já era rainha de um batalhão esfomeado.
Seu reino era formado pelo casal real: Cupincha e Cupinchão I, e centenas de soldados e cupins operários.
A fome desta cambada toda logo se fez notar nas estantes da biblioteca. Os livros iam dormir inteiros e acordavam todos roídos e esburacados.
As estantes já estavam todas corroídas.
Tininha, a bibliotecária loira e esperta (duas características que em geral, não combinam entre si, mas neste caso se aplica, pois Tininha era danada), logo, logo encontrou uma solução para o problema.
Nessa universidade, um pesquisador havia descoberto um anticoncepcional para cupins. O negócio era o seguinte: botava o danado do pozinho anticoncepcional nos livros e estantes, os cupins operários levavam pedacinhos com pozinho para o cupinzeiro, todo mundo comia, inclusive a rainha, ela parava de pôr ovos, e BINGO! Em pouco tempo o cupinzeiro ia diminuindo, diminuindo, até acabar, pois não nascia mais nenhum cupinzinho.
E assim foi feito. De um lado Tininha a super-bibliotecária tentando salvar seu acervo com a ajuda do pesquisador, e de outro o cupinzeiro ameaçado de extinção sem ter a menor noção do que estava acontecendo.
Enquanto isso a vida corria tranqüila no reino de Cupincha e Cupinchão I.
Cupinchão se levantava no raiar das onze horas, se espreguiçava e tocava sua sineta. Lá vinha um cupinzinho operário com seu café da manhã. Colocava a bandeja na cama e suspirava com inveja olhando para os cartazes de cupinchinhas peladas espalhados pelas paredes. Afinal o Cupinchão precisava de incentivo em seu fatigante trabalho.
Todo cupim operário sonhava um dia ser Cupinchão.
No palácio do reino dos cupins havia os aposentos da rainha, os aposentos do Cupinchão, o berçário com milhares de bercinhos sempre cheios de cupinzinhos azuis e os aposentos de hóspedes.
O berçário estava ficando cada vez mais vazio pois a Cupincha vinha botando cada vez menos ovos, até que um dia parou de vez.
Enquanto isso os boatos corriam soltos pelo reino afora. Os operários, que morriam de inveja das mordomias do Cupinchão, diziam, à boca grande e pequena, que ele já não era mais o mesmo. Já não nasciam mais cupinzinhos azuis e culpavam o coitado.
Já havia quem duvidasse da masculinidade do Cupinchão, que passou a ser cantado e decantado pelos súditos em marchinhas bem pouco lisonjeiras.
E o Cupinchão ali naquela agonia. Toda noite ia até os aposentos da rainha para cumprir com função, antes tão prazeirosa.
Já encontrava a Cupincha de cara feia:
- Será que desta vez funciona? Pois saiba que o segundo mandamento da rainha feliz é: “O que não serve mais à Sua Majestade, corte e jogue fora”
Com uma pressão dessas, nem viagra dá jeito.
O Cupinchão, achando que já não fazia mais cupinzinhos e acreditando que a culpa era toda dele, passou a não funcionar mais.
Não havia nada que levantasse o moral do Cupinchão. Tentou de tudo: massagens, revistas de cupinzinhas peladas e NADA! Estava desesperado.
Foi aí que lembrou do velho pajé. Era um cupim velhinho que sabia de remédio pra tudo. Mandou chamar.
O pajé chegou, examinou o Cupinchão e pediu dois dias pra pensar numa solução.
E o Cupinchão, não tendo outro jeito, teve que concordar.
E a agonia continuou. Logo de manhã, após mais uma noite de tentativas fracassadas, o Cupinchão acordou com a musiquinha cantada pelos operários:
“Será que ele é, será que ele é?...”
Na bandeja do seu café da manhã o jornal diário estampava na primeira página uma foto sua com a manchete: “Há algo de podre no reino dos cupins” e uma foto do Cupinchão roxo do reino vizinho, que ficava embaixo de uma mangueira no pátio da biblioteca, com a seguinte frase: “Rainha convida Ricardão III para temporada no palácio.”
Cupinchão passou de preocupado a maluco. Mandou chamar o pajé.
O velhinho, vendo o desespero do Cupinchão, disse:
- Achei a solução!
Explicou que o grande mal estava na comida e quem não estava funcionando não era ele e sim a rainha. O Cupinchão, coitado, desesperou-se.
Que o pajé não sabia o que estava falando. Quem não funcionava era ele. Que a rainha já se referia a ele como “o falecido”, que a sua moral vivia constantemente em baixa. Enfim, quem sofria as penas do inferno era ele! Pensava que era fácil? O jornal local já anunciava a chegada do Cupinchão roxo para os próximos dias e ele tinha pouco tempo.
A rainha dera um ultimato – ou “eu te mato” como diziam alguns – dizendo que, se não voltassem a nascer cupinzinhos naquele reino, o Cupinchão ia ficar sem uma parte do corpo que ele prezava muito. No que acrescentou maldosa:
- Já não está tendo nenhuma utilidade mesmo...
O pajé ouviu paciente o desabafo do Cupinchão e anunciou que ia começar o tratamento. Parte deste tratamento seria que, a partir de então, ele mesmo prepararia as refeições do Cupinchão e da rainha.
Naquela mesma noite o pajé saiu a procura de comida. Ao invés de roer os livros e estantes da biblioteca da Tininha, pois sentiu neles o mesmo cheiro estranho que havia sentido na comida do cupinzeiro, procurou, procurou e acabou encontrando um monte de papéis sem o danado do cheiro, no cesto de lixo.
Levou para o cupinzeiro e começou o tratamento. Pediu à rainha que desse três dias de descanso ao Cupinchão - afinal ele estava muito estressado – e levava a comida dos dois, que ele mesmo buscava no cesto de papéis.
Para disfarçar, pois ninguém acreditava que o problema estava na comida, o pajé servia um chazinho de ervas para o Cupinchão, dizendo estar ali o antídoto para a grande maldição.
Eis que, desgraça pouca é bobagem, o Ricardão III chega no segundo dia de tratamento do Cupinchão.
Hospedado no quarto de hóspedes, olhando com desdém para o Cupinchão e azarando a rainha na maior cara de pau, Ricardão era seu inferno astral e, ainda por cima, roxo! Ele não tinha só aquilo roxo. Era todo ele roxo!
Cupinchão ordenou ao pajé que se apressasse com o serviço, que ele precisava visitar a rainha no final do descanso de três dias e não podia dar vexame.
Se não desse certo ele estaria perdido.
O pajé preparou um jantarzinho íntimo para os dois, com velas e rosas amarelas, serviu um chazinho esperto e se despediu com um sábio conselho:
- Vai que é tua, Cupinchão!
A rainha estava linda e perfumada. Cupinchão, confiante no tratamento e relaxado por efeito do chá, estava em ponto de bala. Tiveram uma maravilhosa noite de amor.
Na manhã seguinte, ao perceberem que o Cupinchão havia dormido nos aposentos da rainha, os operários trataram de espalhar a notícia.
Em cinco minutos o cupinzeiro todo estava sabendo.
Passaram o dia em polvorosa. E o Cupinchão na maior felicidade. Fan-tás-ti-co!
No outro dia vem a notícia: a rainha havia botado milhares de ovos e o berçário estava repleto de cupinzinhos.
Cupinchão mandou reunir os súditos defronte ao berçário para mostrar a todos o resultado do seu sucesso. Ia ser uma cerimônia linda. Rufariam os tambores, tocariam os clarins e abririam as cortinas do berçário. Maravilha!
Tudo pronto pra festa, Cupinchão fez questão de convidar pessoalmente o Ricardão III. Praticamente exigiu a sua presença no evento. Seria a sua vingança.
Os súditos chegaram, foram se juntando em frente à vidraça do berçário, no maior ti-ti-ti. Ricardão, meio desconfiado, chegou junto com o casal real.
Cupinchão não cabia em si de felicidade. O pajé deu início à cerimônia, e, depois de um breve discurso, enaltecendo as qualidades do nobre reprodutor, enquanto os súditos aplaudiam e deliravam, os tambores rufavam e tocavam os clarins, o pajé abriu as cortinas.
Lá estavam, em seus bercinhos, lindos e rechonchudinhos, milhares de cupinzinhos...roxos!
Cupinchão ficou tão danado da vida que criou asas e voou pra longe. Depois de algum tempo, tiveram notícias dele. Estava namorando uma formiguinha independente que morava sozinha. Montara um banco de sêmen para Cupins com problemas e – dizem as más línguas – o Ricardão III era seu melhor cliente.
Assim era melhor. Depois de tanto stress, nada como viver ao lado de sua laborosa companheira, fazendo aquilo que mais sabia e mais gostava.
Os problemas de Tininha, a super-bibliotecária loira e esperta, de repente, acabaram. Os livros e estantes não eram mais roídos. Os cupins desapareceram.
O pozinho anticoncepcional do pesquisador foi considerado um sucesso e tudo voltou ao normal.
Tininha até hoje fica intrigada quando passa embaixo da mangueira que existe no pátio da biblioteca, onde fica estacionado o seu fusca vinho, e vê, ao pé do tronco, um monte de bichinhos azuis e roxos saindo de um buraquinho. O que seria aquilo?

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