segunda-feira, janeiro 30, 2006

Parceria


Saiba que o seu livro preferido conversa com o meu. Encostadinhos, capa com capa, a esconderem marca-páginas coloridos e trocando detalhes da minha vida e da sua.
O seu é bem vivido. Capa dura. Carrega as marcas de um livro maduro, que morou em vários lugares até ser resgatado por suas macias mãos no sebo de uma rua onde não se toma café sem um sorriso.
O meu, reluzindo de novo, se aconchega no cheiro bom das páginas amareladas do seu , como que a pedir o abrigo de um abraço gostoso.
O espaço de mundo que há entre o seu lindo sorriso no porta retratos e a minha imagem no espelho do quarto é imenso. Nele cabem, com folga, o café preto e forte que fiz pensando em você, as aulas de natação que um dia vou tomar, o ninho de um João de Barro no alto da árvore que mora na minha janela, a bolsa nova, a violeta que floriu pela terceira vez, o solo de saxofone da música que você me deu e todos os seus passos. Principalmente os que são em minha direção.

Foto by Carol

sexta-feira, janeiro 27, 2006

TPM


Não discuta comigo!
Meus peitos incharam. Minha barriga também.
O mundo de repente ficou mais injusto.
O barulho do trânsito insuportável.
A cor do céu mais melancólica.
O meu amor mais distante.
As dificuldades intransponíveis.
A cama e as cobertas irresistíveis.
Meus braços mais pesados.
Meus passos mais lentos.
Minha auto-estima muuuuito mais baixa.
O choro mais fácil.
As lágrimas abundantes.
Meus pés gelados.
Clemência.
Espera passar. Depois discutimos.
Aí eu ganho.
Certeza.

PS. Não sei de quem é a linda foto. De onde eu roubei não dava o crédito.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Cartões de papel reciclado


Cartões que faço de papéis reciclados...não são lindos?

terça-feira, janeiro 24, 2006

Balada para embalar Tiago


Este é o Tiago. Meu filho maravilhoso que faz hoje 21 anos.
Quando ele fez 12 eu fiz esta declaração de amor pra ele. E vou repeti-la pra sempre.
Beijos Filhão! Te amo!
Balada para embalar Tiago
Um corpo que se avolumou
se arredondou pra te envolver.
Cresceu contigo
em forma de esfera.
Uma linda bola que pulava com tua vida.
Veio de dentro de mim
e tornou pequenas
as coisas aqui de fora.
Tive medo. Tive dor.
Mas acima de tudo estava a tua força
e o meu amor.
A tua força me guiou. Você era a luz.
Abocanhou sofregamente
seios chorosos.
Ansiosos por te alimentar.
Você foi o primeiro
O primeiro dos pequeninos gigantes
pelos quais me apaixonei.
Sou tua fã.
Só não te amo demais
porque amor não tem tamanho nem medida.
Apenas AMO VOCÊ.
Você: amplitude, paixão, segurança, doçura,
respeito, admiração, paz.
O que de melhor tenho e o que de maior valor possuo.
Você é a luz. É você que me guia.
Siga sempre em frente TIAGO.
E pise firme.
O mundo é todo teu.

Lendo Tchekov



Alguma criança deve ter ficado sem presente pois este também foi o Papai Noel (lindo!) quem me trouxe.

Como se não bastasse fazer parte da Santíssima Trindade Russa, Tchekov nos chega revelado através da análise de seus contos pela maravilhosa Janet Malcom.

Amostra: "As cartas e diários que deixamos para trás e as impressões que causamos em nossos contemporâneos são apenas a mera membrana em torno da nossa vida no que ela tem de essencial. Quando morrermos, este cerne é enterrado conosco. Nisso residem todo o horror e a miséria da morte, e esse é o motivo da inevitável banalidade da biografia." A imagem da membrana e do cerne é tirada do conto "A Senhora com o cachorrinho" que é considerado a réplica de Tchekov a Ana Karenina, a sua defesa do amor ilícito contra a brutal condenação por Tolstói.

O livro é um passeio. A parte introdutória é uma viagem à vida do escritor usando cada conto como uma estação de trem que nos leva à sua infância, ao seu relacionamento com a família, seus métodos de escrita, sua delicadeza de um homem encantador, maravilhoso, modesto e tranquilo. Descrição de Tchekov por Gorki.

Janet Malcolm delicadamente abre e analisa cada membrana que envolve a vida do escritor e nos presenteia com 176 páginas de puro deleite. Nos apaixonamos perdidamente por Tchekov nestas páginas que antecedem os 37 contos, como se elas fossem a corte de um amante sedutor, então nos entregamos por completo à sua escrita precisa, tentando adivinhar por trás das tramas onde estará o cerne desse gênio.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Carmem


O Papai Noel foi generoso e deu essa maravilha aí pra mim e pra Fal.
O Ruy Castro é fera. Quando vc lê, sente que aquilo é a ponta do iceberg boiando em meio a frases precisas e um casuísmo quase natural, não fosse o descomunal acervo de informações que a gente sabe que se esconde por trás de uma verve corrente e solta.
Que inveja desse acervo!
Imagine o que não ouviu, viu, gravou, leu e navegou um cara que já escreveu a biografia do Garrincha, do João Gilberto e (imagine!) do Nelson Rodrigues. Informações preciosas que estou degustando feito um bom vinho.

Guinada


Qual o problema em ser frágil?
Por que diabos temos que aparentar a força de um rochedo?
Absorvemos todos os golpes com um cândido sorriso enquanto serena e refletidamente tomamos providências, uma a uma, para que o inferno de Dante que de vez em quando se abate sobre nossas vidas seja dissipado sem maiores danos e sem um maior número de vítimas que não seja o nosso próprio peito. Pois é... Isso é tarefa da qual exijo férias. Remuneradas. E sem data pra retorno.
Sorry, periferia! Cansei da pose. Essa coisa de ser reconhecida pelo valor intelectual e competência profissional encheu o saco!
Tô treinando no espelho a jogada de cabelo e o beicinho. Meu negócio agora é ser mulher objeto!
Sonho com o dia em que só vou cuidar é dos quitutes!!

Foto by me

Pérolas

Finalzinho de domingo, zapeando na cama eu encontro Tom Zé e Sidney Magal no programa de entrevistas da Monica Waldwogel (será que é assim que escreve?).
Delícia. Principalmente por estarem juntos.
O sal da terra e a luz do mundo. Só não me pergunte quem é o que.

domingo, janeiro 22, 2006


"Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio."

Carlos Drummond de Andrade

Foto by me
Já é tarde pra fazer lista de ano novo né?
De qualquer forma vai aí uma listinha de idiossincrasias de estimação:

1- Não vivo (mais) em ambiente hostil;
2- Casa bagunçada me irrita;
3- Solidão não me assusta;
4- Tenho medo de água;
5- Não consigo deixar de responder emails no mesmo dia;
6- Não ter vinho tinto em casa me agonia;
7- Pago as contas no caixa eletrônico pois tenho medo de pagar na internet;
8- Pedir ajuda me incomoda;
9- Preciso de café pela manhã;
10- Gosto de caminhar pelas ruas, não em parques;
11- Gosto de carnaval somente pela tv;
12- Shows somente com poltronas numeradas/mesas reservadas, ar condicionado e modomias tais;
13- Não respondo a perguntas quando estou com sono;
14- A visão de uma arma me agride;
15- Não me relaciono com pessoas que tratem mal meninos no semáforo;
16- Adoro quiabo;
17- Assisto ao mesmo filme várias vezes;
18- Nunca tive um vestido vermelho;
19- Durmo em qualquer lugar, com qualquer luz e qualquer barulho;
20- Dou nome às minhas coisas.

Já é caso de internação?

sábado, janeiro 21, 2006

Breve comentário

Sou a última de onze irmãos. Sendo a última das personagens, escrever sobre as demais, nada mais é do que uma forma de reviver memórias das quais não participei.
Somos descendentes, por um braço genealógico, de imigrantes italianos que vieram, como outros tantos, substituir a mão de obra escrava nas lavouras de café.
Estes seriam meus bisavós paternos. Figuras distantes e enevoadas, sobre as quais não tenho nenhuma informação. Irei à cata de arquivos em breve.
D. Maura, minha mãe, é uma espécie de arquivo central da família. Sua boa memória guarda detalhes preciosos, de um passado sem registro.
A condição de analfabetos e totalmente desprovidos de posses tornaram inexistentes cartas, fotografias ou qualquer registro impresso que pudesse legar informações.
Talvez por isso, meu vasto interesse por biografias, paixão por retratos antigos, móveis e figurinos de época.

Praia



Tomo sol nas pedras, numa extremidade da praia, onde as ondas batem, fazendo espuma e chuviscos que refrescam a pele e causam arrepios...
Minha pele, coberta de cremes, aos poucos muda de cor.
O vento traz o mar, mas não me traz você.
E a saudade enche os dias e os copos enquanto espero pra te ver.


Foto by Carol

bagagens

Guardando cheiros
indeléveis na pele
que se misturam aos cremes
já passados.

Fechando malas
que deixam mais do que levam
revelam mais do que guardam
detalhes preciosos
impossíveis de serem esquecidos.

Último olhar conferindo:
biquíni novo
Tchekov na mala
crianças no carro
beijos que voam
borboletando entre mensagens faladas e escritas.

Mensagens sem cheiro,
sem cor,
sem toque,
mas com o sabor de uma promessa
repleta de desejos.